quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Por que as psicólogas são tão complicadas?




Adriana Tanese Nogueira





Mesmo a custa de atrair o linchamento da categoria, preciso desabafar. E vou falar no feminino sim. Apesar de haver psicólogos homens, esta é uma profissão tipicamente e majoritariamente feminina. A Psicóloga. Como dizer: A Enfermeira. Ridículo seria usar o genérico masculino quando a grande maioria de enfermeiras e de psicólogas é mulher.

Aliás, há aqui uma boa comparação; ambas são profissões de assistência e de ajuda. Só que uma presta um serviço material vinculado ao corpo. Encaixa-se, desta maneira, num trilho ancestral feminino: o serviço para com a vida e a morte. Mulheres assistem partos e assistem moribundos. Parece que são especialmente boas em fazer isso.

Agora, há umas décadas entrou em cena A Psicóloga. Ela também serve, só que serve para o auto-conhecimento e a cura psíquica alheia. Seu trabalho é menos braçal e mais intelecual. Requer menos imediata generosidade, disponibilidade, coração e paciência. Nem por isso é mais fácil. Muito pelo contrário. É bem mais difícil e aqui está o x da questão.

As psicológas se dividem grossomodo em dois grandes grupos. Há aquelas com pose de superioridade e há as maternais-afetuosas. Das duas, prefiro as primeiras, mas haja paciência para lidar com elas.

Estas querem dar lustro à sua profissão, sentem-se em missão, estudam e se aplicam, se dão um ar de seriedade e a atitude distante de quem olha de cima. Tendem a ser neuróticas, preconceituosas e antipáticas. Apesar disso, atrás dessa contorta máscara que vestem entrevejo algo interessante, a percepção confusa de que psicologia é algo mais que acolher e dar suporte às pessoas.

As psicólogas maternais e afetuosas são mãezonas. Como ninguém dispensa uma mãe, elas são amadas (apesar das inevitáveis manipulações afetivas incluidas no papel). Nem por isso estão fazendo psicologia em seus consultórios. Poderíamos chamar seu trabalho de aconselhamento, serviço social, rede de apoio e coisa parecida. Psicologia é outra coisa.

A psicoterapia nasce para “trazer o inconsciente à consciência” (Freud). A figura do psicólogo em geral é o instrumento desse processo. Como? Sendo ele mesmo a cobaia de sua atuação, ou seja, o psicólogo ajuda o outro a fazer o que ele faz cotidianamente em si e consigo próprio (Montefoschi). Nenhum psicólogo pode contribuir para o crescimento de seu paciente se ele mesmo não estiver no mesmo processo. Portanto, o psicólogo é um laboratório vivente, é um consultório ambulante. Ele é seu próprio analista e paciente, seu experimento e sua resposta, seu mestre e seu discípulo. Ser psicólogo é um constante aprendizado, uma forma de encarar a vida e seu sentido na terra. O fato dele estar com a consciência constantemente afiada (simbolismo da espada-discernimento. O Herói de Lutz Muller) concede-lhe a habilidade de ajudar os outros a desembaralharem seus próprios nós.

Não só. O psicólogo só pode levar seus pacientes (por isso, uma "mãezona" só terá "filhas" em seu consultório) até o ponto em que ele mesmo chegou. Por este motivo, o psicólogo está virtualmente num processo infinito de autoconhecimento. Seu trabalho interior é incessante, profundo e vasto por definição. É somente isso que garante a qualidade de seu atendimento.

Num mundo dividido entre mente e corpo, espírito e matéria, pensamento e sentimento, consciência e inconsciente, o trabalho do psicólogo consiste em romper dialeticamente e conscientemente, essas divisões, experimentando em si o resultado das contínuas violações do status quo, interno e externo (Jung e Montefoschi).

Ser psicólogo, portanto, não é um trabalho como os outros, é um modo de ser (Jung e Montefoschi). Um modo de ser que quebra o paradigma contemporâneo das dualidades contrapostas e contribui para o nascimento do novo. O psicólogo é a parteira da individualidade adulta e completa da outra pessoa (Sócrates).

Agora, voltando às nossas psicólogas. Quando essa visão da função da psicologia falta ou quando o trabalho interno não foi devidamente e extensivamente enfrentado, não resta à psicóloga que trancar-se num papel social, vestir o uniforme da “entendedora” e analisar/ajudar seus semelhantes. Encontrei várias dessas pessoas e, devo dizer, que sempre me deram nos nervos. Temendo receber o mesmo tratamento que dão, não se mostram, não trocam, não se expõem. Não sabem se abrir, temem sua própria espontaneidade.

Se elas são o modelo humano e psicológico de referência para os que precisam de autoconhecimento, não espanta que haja tanto preconceito com relação a “fazer terapia”.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Libertação das Mulheres. Sociologia, Psicologia e Cristianismo




Adriana Tanese Nogueira






Para se orientar no infinito
é preciso primeiro distinguir
para depois unir.
Goethe




O machismo existe e é suportado pelos dois gêneros. Todo mundo sabe disso. Apesar do sofrimento que sentem, muitas vezes as mulheres não conseguem se libertar do que sabem estar errado. Há uma insegurança interior radical que as prendem. De onde ela vem?





Do ponto de vista da Sociologia, as mulheres foram ganhando espaços sociais na base da luta, do grito e da inteligência. Com coragem e perseverança ela abriram espaços sociais antes só masculinos. O século passado marcou um enorme avanço nesse sentido. Não podemos esquecer disso. Se hoje você tem um computador e pode ler este artigo que eu pude escrever, é porque alguém antes de nós lutou para que esta liberdade de pensar e se expressar fosse possível. Esse alguém foram mulheres. Honremo-as, hoje e sempre. 



O que o feminismo histórico conquistou no plano social e privado (família, relações, casa, estudos, etc.) resultou das condições do tempo e das sociedades nas quais se desenvolveu. Esse momento histórico está refletido no determinado nível de consciência que essas mulheres tinham.

A percepção e o entendimento das coisas depende de diferentes variáveis, entre elas o momento histórico, a cultura e a formação subjetiva de uma pessoa. Nem tudo pode acontecer em qualquer momento e com qualquer um. Há de estar prontos. Isso se chama consciência. Em função dela é que algumas pessoas apoiam o sistema ou o criticam. Mas todas estão em sintonia com seu tempo, porque não existe tempo estático, tudo é movimento (Heráclito). Dependendo da perspectiva e da formação pessoal, alguns caminham para frente, outros pisam nos freios.

Entramos na Psicologia. A psicologia é o discernimento do mundo interior, assim como a sociologia trata daquele exterior. Faz parte da velha cultura desconsiderar isso como fosse coisa “pouco importante”. E é por isso que temos hoje LINDAS éticas filosóficas, tivemos FANTÁSTICOS ideais políticos e humanitários e SENSACIONAIS valores espirituais e estamos ainda nesse mundo caótico, anti-ético e corrupto. Filósofos, sociológos e religiosos ainda se dão conta que sem trabalhar a psicologia individual (começando por eles mesmos), ideais e objetivos acabam no emaranhado sórdido e obscuro daquele mundo esquecido e não cultivado que chama-se “realidade interior” (ou subjetividade).


Voltadndo às mulheres. Do ponto de vista psicológico, a divisão do trabalho (veja Engels, Marx e Montefoschi) levou à divisão de papeis entre homens e mulheres. Não há nada de mal com isso. Qualquer mulher que desenvolva mais de um papel sabe da benção que é poder dividir. Aliás, estamos, nós mulheres, nesse momento histórico, coletivamente, lutando com esta situação: como ser tudo ao mesmo tempo? Mulher 360 graus?


A divisão do trabalho e dos espaços sociais levou à construção de identidades internas. Habituadas a só fazer filhos, as mulheres se entenderam (e foram entendidas) como só mães. Os homens, habituados a caçar, entenderam-se (e foram entendidos) como somente caçadores. Uma domina os sentimentos, a ternura, os cuidados e os espaços internos – corolário da maternidade. O outro domina a ousadia, o atrevimento, o espaço externo, as estratégias, a coragem (ela também tem coragem: ao parir; mas depois torna-se conservadora para proteger a prole). O problema surge quando um e outra são impedidos por dogmas internos e preconceitos sociais a serem mais do que o papel prevê.


Num segundo momento, enquanto a mulher continuou procriando – pois quem mais poderia fazer isso? – e com a evolução da sociedade, os homens tiveram tempo livre para pensar sobre a vida. É preciso ter tempo livre para pensar. Não se criam teorias trocando fraldas e amamentando (ou passando o dia no shopping e na manicure), não se escrevem livros e debatem idéias em meio a crianças, comida e casa para arrumar. Agora, é inegável que – do ponto de vista da evolução humana – as primeiras descobertas do Pensamento, as perguntas sobre a Existência, as Leis, sobre o Ser Humano e sua essência são de enorme valia. O que seria de nós todos sem isso? Eu mesma já teria minha vida cortada pela metade sem os Pensadores Gregos. Nossa civilização estaria pouco mais evoluída do que os conquistadores romanos.

Agora, se muitas mulheres hoje desistem de ter filhos pela carreira... por que haveriam os gregos antigos de considerar mais importante ter filhos do que desenvolver o Logos? A “produção material” sempre foi considerada menos importante do que a intelectual. Filhos, qualquer um pode ter. Idéias NÃO. E de fato, ter filhos é tanto mais valioso não porque é resultado de um ato sexual que qualquer mamífero pode cumprir, mas porque dá nascimento a um Ser Humano – o qual se define pela sua Consciência.

É assim que temos que entender o machismo dos gregos antigos. Se as mulheres faziam parte de um grupo social inferior era somente porque cuidavam de atividades corriqueiras, banais, “as de sempre” (como ainda fazemos, só que junto a muito mais). En contrapartida, as mulheres que não tinham filhos, as éteras, podiam ser filósofas e uma delas, Diomede, foi quem ensinou a teoria do Amor (de onde vem o Amor e o que é) a Sócrates. É dela que ele aprende.


A religiosidade grega demonstra que o machismo de sua sociedade não era absoluto quando tem Deusas em seu Olimpo. Atena é a protetora – vencendo Poseidon – de Atenas, a mais iluminada e importante cidade da Grécia, a Nova Yorque daqueles tempo. É um dos lados femininos da divindade que rege a inteligência, a audácia, as artes da civilização. Não Áres o deus da guerra inflamada, corpo a corpo, violenta e cega. Não Zeus, o Pai de todos os Deuses. Mas Atena. Assim como é Afrodite a deusa do amor e da sexualidade, não Eros (seu filho). Querendo, uma mulher tinha uma Deusa à qual olhar e rezar. Uma Deusa que suscita admiração e paixão.

Agora, com o Cristianismo foi introduzido um machismo muito mais duro e inapelável. Deste antes havia machismo, mas o que o tornou sólidamente sufocante foi o Cristianismo, que vem do Judaismo.


O Judaismo era uma religião tipicamente masculina. Já vinha há séculos lutando contra os outros cultos. Os repetidos ataques de ira de Javé devem se imputar à permanência de rastros das religiões co-existentes na mesma época, em particular aos cultos das deusas. Javé quer fazer limpeza geral disso tudo e condena sem piedade quem sai do trilho. Jesus nasce nessa tradição e, apesar de os evangelhos canônicos, darem sinais que ele não era machista, como é que há somente “evangelistas” e “apóstolos” homens? Limite de Jesus? Limites de quem escreveu os evangelhos? Limites dos que decidiram quais evangelhos eram aceitáveis e quais não? Por que a idéia de que Jesus pudesse ter tido amor carnal é tão repudiada? Entretanto, sinalizando as mudanças dos tempos, essa idéia apareceu publicamente com o livro “A Tentação de Cristo” que virou filme, deixando a Igreja Católica e parte da opinião pública no alvoroço, e agora com “O Código Da Vinci” desta vez melhor recebido pela opinião pública.

Quando a inferioridade da mulher não é social mas “espiritual” é que ela está tragicamente declassificada. Se o problema fosse somente social, se luta contra. Mas para lutar contra é preciso sentir-se digna de obter o que se quer. Para isso precisa ter consciência das correntes que prende num nível não racional. E a raíz última de toda “inferioridade” feminina está na dimensão religiosa.


A religião segura o que é válido acima das subjetividades humanas e da temporalidade. Supostamente dá o norte do que é imperituro e supremo, eterno e absoluto. É em nome da religião que o homem se torna superior à mulher. O social espelha o que o religioso sustenta. Sua raíz está no céu.

É o que diz a psicologia analítica de Jung. Se a mulher “não tem representação no parlamento de cima” o que acontece com sua auto-estima? Ela é inferior na essência. Isso é muito pior de ser inferior por lei! Leis se mudam, como se muda a essência? Só questionando que seja real. Mas para isso, precisa questionar... Deus! É (aparentemente) um cheque mate.


Com esta idéia introjetada durante séculos na psique feminina, a mulher é castrada num nível que ela mesma não percebe mas que se reflete claramente em sua vida, escolhas e limites. Há uma fraqueza, como um vazio básico, profundo, mudo, que faz com que ela possa falar muito, sonhar alto, gritar e chorar, mas não agir efetivamente e transformar.

Na hora h ela volta pro rebanho, submete-se ao homem, às regras, ao grupo, à família. Mesmo quando o grupo é de mulheres, há um homem de referência ou há um pensamento rígido que define os limites e a identidade do grupo.


A libertação feminina só ocorrerá de verdade quando as mulheres se outorgarem o direito a seguir sua “natureza” interna. Vou tentar explicar melhor tentando não cair em estereótipos. Quando o feminino "subir ao céu" como expressão do divino, a mulher terá a benção para Ser. Para que o feminino seja entronado legitimamente, as mulheres de carne e osso devem fazer o duro e corajoso trabalho psicológico sobre si mesmas resgatando o que ficou mudo e reprimido durante os séculos. Elas precisam dar valor e expressar o que seu corpo fala (desde a dor de barriga da menstruação à angústia do coração), suas intuições, sentimentos e emoções (Silvia Montefoschi). O homem conheceu o real e o transformou em idéias, conceitos, entendimentos, filosofia e ciência. De todo o real que o homem conheceu, o único que ficou de fora é seu próprio mundo interior. É a história do olho que não se enxerga (Paul Davies, físico) Os homens têm residência no lóbulo frontal do cérebro. O resto do corpo em sua presença física e simbólica mergulha na escuridão. Ele o manipula a partir de suas concepções e através de seus instrumentos mecânicos ou artificiais, nunca pelo caminho interno. Para apoiá-lo nessa postura ele tem as ciências e as religiões que, tendo sido criadas por ele, só poderiam espelhá-lo! Ora bolas.

A mulher vem para revolucionar. Ela traz um paradigma totalmente outro. Pelo menos, ela tem condições de fazer isso. É a hora dela. Como foi a hora dos filósofos gregos jogarem as fundamentas do pensamento ocidental 2500 anos atrás, seria a hora das mulheres lançarem um jogo totalmente novo, a partir de sua carne traduzida em Logos, eu seja em conhecimento universal e válido.





domingo, 8 de novembro de 2009

O faz de conta dos homens


Adriana Tanese Nogueira




É interessante observar como certos homens são peritos no faz de conta. Eles são tão bons nisso que nem eles mesmos percebem que estão fazendo de conta. O que eles mais fingem não ter são sentimentos e emoções.

Sentir essas coisas é algo que eles deixam para mães, namoradas, esposas e mulheres em geral. Isolados e afastados do mundo interior, eles se permitem julgar ou viver indiretamente uma parte mais ou menos grande do que elas manifestam. É como se usassem o telecomando. Pois mergulhar na vivência eles não o aguentam.

Desta forma, os homens se submetem a ser eternamente dependentes do feminino externo para acessar seus próprios sentimentos e emoções (o que muitas vezes se identifica com o sexo). Esta mutilação psicológica lhes impede de ser inteiramente humanos, mas tem a vantagem de liberá-los, pelo menos superficialmente, de sentimentos de culpa, pesar, preocupações, fragilidade e etc, parecendo invincíveis. Também, evita-lhes o trabalho de criar uma realidade para seus sentimentos. Exemplo: ele gosta ou tem saudade de tal mulher; ergo, deveria fazer algo para aproximar-se dela. Muitos homens não são capazes disso. O que fazem é criar situações periféricas e secundárias que induzem a mulher a agir. Desta forma, eles não se comprometem e ainda por cima têm faca e queijo na mão: ela se entrega de sua iniciativa.

Este comportamento masculino, que causa tanto sofrimento em ambos os sexos, está fundamentado na divisão psicológica de papeis. Eles são os que pensam e agem, mais frios e práticos; ela são as que sentem, mais emocionais, instintivas e intuitivas. É evidente que hoje em dia as coisas estão mais misturadas, mas estamos ainda longe de ter chegado à próxima etapa evolutiva. A pressão social para que um garoto se desenvolva segundo um certo modelo é tão cruel como a das garotas aspirando a ser barbies.

A dificuldade de romper com este pensamento consiste em pelo menos dois fatores importantes. Em primeiro lugar, no fato que a posição masculina é aparantemente vantajosa e ninguém, a menos que se sinta obrigado por força externa ou seja um ser muito consciente, resolve por si próprio descer do trono. Socialmente, os homens são avantajados, acho que não preciso exemplificar isso. Culturalmente, sua distância emocional combina com a sociedade de consumo e prepontente na qual vivemos, onde o que importa sou eu e meus interesses. Psicologicamente, dá ao homem a ilusão de ser forte. Forte ao preço de recalcar o que o tornaria sensível.

O outro motivo importante é que cada um dos gêneros é o que é em relação ao outro. Nenhum deles nasceu e foi criado numa sociedade só feminina ou só masculina. A divisão de papeis pressupõe que um faz uma parte e o outro faz a outra. Assim, até que as mulheres assumirem viver ou expressarem os sentimentos por dois, os homens não precisarão encarar os próprios. Até que as mulheres aceitarão o faz de conta deles, os homens não precisarão arrancar as cortinas e encarar sua realidade.

Lembro minha analista quando me disse, muitos anos atrás: observa os pombos. O macho paquera a fêmea. O que ele faz? Enche o pescoço e roda em volta dela. O que ela faz? Evita por um tempo. Ele vai atrás. E assim em diante. Ele espera a resposta dela, ela espera a dele. Ambos fazem a mesma coisa há milhões de gerações. Cada um reconhece o comportamento do outro, o tem imbutido em seu próprio DNA.

Para quebrar o faz de conta masculino basta então romper o script, não fazer a parte prescrita. O que você faria frente à indiferença dele? Visualizou? Bem, não faça. Faça o contrário. Faça de conta também. Embaralhe as cartas, brinque, bagunce.

Difícil? É difícil sim, porque ambos estão na mesma armadilha psicológica. É preciso de muito amor, consciência e maturidade para conseguir quebrar o ovo e nascer como pessoas verdadeiras.

Poder é poder Ser, não fingir que se é fortes e poderosos, ou seja indiferentes. O rei está nu.

PS. Livros sugeridos: "O Mito da Masculinidade" de Sócrates Nolasco e "A Profecia Celestina" de James Redfield.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Relações: adaptar-se, isolar-se ou...?


Adriana Tanese Nogueira


Duas pessoas se encontram, se gostam e se frequentam. Algo atrai uma para outra. Certamente, terão pontos em comum: estilo de vida, escolhas, mentalidade, busca, ou simplesmente um misterioso e fasciante laço.

Deixando para lá o aspecto da projeção de um sobre o outro, assunto importante que tratarei em outro momento, o que interessa agora é refletir sobre a psicologia relacional prática. A questão em pauta é: o que fazer com as divergências de hábitos, modos de vida, cultura e crenças que se descobrem na outra pessoa?

Reza o senso comum que o primeiro recurso é a adaptação. Seria a solução correta se não fosse que numa cultura dicotômica (ou seja, baseada em opostos, “ou isso ou aquilo”, “ou eu ou você”, etc.) adaptação acaba por se transformar, na prática, em submissão.

Mesmo quando não há exibição explícita de poder de um sobre o outro, há a submissão a valores, hábitos, família, ambiente emocional ou intelectual do outro. Mesmo quando se trata do melhor e mais culto, do mais inteligente e consciente da relação, há subimssão dele ou outro, ora porque o outro é dependente demais da família de origem, ou incapaz de fazer uma coisa ou outra, ou frágil, ou indeciso... Não importa a razão, resta que ao “aceitar e adaptar-se” à dimensão do outro, esta se torna a nossa, mesmo quando seríamos capazes e precisaríamos de muito mais.

Pensemos na adaptação à sociedade, essencial para vivermos nela. No modelo dicotômico, adaptação quer dizer encaixar-se no esperado, vestir a camisa, adotar um papel pré-pronto e atuar conforme o figurino. Esta forma de “adaptação” é um suicídio da unicidade de cada um e, naturalmente, causa de inúmeros transtornos psicológicos, depressões e comportamentos autodestruitivos.

Ao contrário, Jung sustenta que o indivíduo adaptado é aquele que soube modificar o mundo ao inserir-se nele e que somente na relação com o mundo o indivíduo pode se realizar. Isso significa que ninguém encontra sua plenitude se não assumir sua jornada individual, única, solitária e gloriosa. Mas esta jornada não acontece se não se estiver em relação com o mundo.

Surge então a pergunta: como se pode inserir uma novidade (idéia, valor, individualidade) num mundo já dado e feito? Há os que desistem e se deprimem (se forem honestos) ou inventam detalhes coloridos para dizer-se diferente (se mentirem), e há os que, de alguma forma, explodem o mundo (isolando-se ou destruindo-o).

A alternativa a isso é transformar o mundo para que nele caiba nossa novidade (pessoa, projeto, idéia), o que somente ocorre se formos capazes de nos relacionar com ele. A solução dialética consiste em encontrar uma terceira via entre explodir o mundo e mutilar-se para se adaptar a ele.

Voltando às relações sentimentais, acontece frequentemente que no afã de “não criar problemas” tende-se a calar o que incomoda e a “deixar correr”. Esta é a reação não dos fortes e superiores, mas dos que simplesmente não sabem o que fazer. Não precisa ser genios para imaginar que após um certo tempo desse “deixar correr”, o pote estará cheio e... bum!

Faltou a honesta comunicação.

Agora, aqui entra o nó da meada. Num mundo dicotômico, a relação da pessoa consigo mesma não existe de verdade. O que a pessoa sente, se não for o que comanda o script, é entendido como ameaçador, e portanto rejeitado. Fica-se fiel ao modelo mental/ideal de relação (baseado em estereótipos) porque falta a dialética interna que permite o dialogo com o que se sente.

Essa adaptação sela o fracasso da relação. Várias adaptações como esta ocorrem de ambos os lados durante anos. As conversas tendem a evitar os pontos delicados, restringendo-se sempre mais. Entretanto, os dois irão se surpreender com as tensões, brigas ou somatizações que acontecem “do nada” e é nelas que, mais cedo ou mais tarde, a corrente oculta das verdades caladas irá romper a diga e alagar tudo.

Relação é a terceira via. Relação de verdade só pode ser dialética. Não é nem eu nem você, mas “nós”, feito de mim e de você e do que formos criando juntos ao descobrir esse novo mundo que é o “nós”.

Relação é integração e crescimento recíproco. Mutilar-se para estar com o outro é um ato falho de quem não acredita que pode ser amado por aquilo que é. Numa relação creativa e dialética, as duas (ou mil) pessoas deveriam estar ampliando seus horizontes uma com a outra, não só em termos intelectuais, como também afetivos e sentimentais – e reconhecer isso. Aprender a amadurecer incluindo novos aspectos, visões, modos de ser – e sentir-se bem com isso. Compreender outros pontos de vista e descobrir a convivência que exalta as diferenças sem se sentir ameaçada por ela – e sentir-se pessoas melhores por causa disso.

Mas, para chegar lá, é antes indispensável ter dois indivíduos que se possuem a si mesmos, que sabem integrar na própria consciência as mútliplas faces de seus próprios sentimentos, as estranhas emoções e percepções que venham a ter, os desejos e intuições que irrompem de repente. Somente uma pessoa com um mundo integrado e criativo dentro de si pode criar outro fora de si, para si mesma e para aqueles a quem ela ama.

domingo, 25 de outubro de 2009

Almas Sensíveis: Vivendo e Aprendendo



Adriana Tanese Nogueira



Dedico esse texto à minha família
e a todas as almas sensíveis
que sabem quem são
e querem continuar sendo o que são.
Que bom que existem!



Era uma vez as almas sensíveis. Elas pensam duas (ou dez) vezes antes de perturbar o próximo. São as que observam o mundo à sua volta e só depois se lançam nele. Não gostam de papagaiar lugares comuns que tanto agradam a certos ouvidos. Elas precisam se sentir realmente à vontade antes de agir. As almas sensíveis tendem a parecer tímidas, certamente são introvertidas. E isso lhes causa um monte de dificuldades.

Era uma vez as almas gentis. Entram nesse mundão e demoram um tempo para se enturmar. Não são dadas à confusão, não entendem bem o jogo que rola há tempo e sequer querem entendê-lo direito, lhes parece barulhento demais para o seu gosto. As almas graciosas são susceptíveis à beleza e harmonia; consequentemente, sentem-se muito incomodadas diante do que é sujo e bagunçado.

Era uma vez as almas delicadas. Quando é hora de integrar-se no mundo e buscar seu lugar, as almas delgadas são facilmente postas de lado por mãos distraídas ou interesseiras. Tropeça-se sobre elas ou as se desconsideram, dá-se passagem a outrem. Raramente são valorizadas publicamente, pois num mundo rumoroso e escandaloso, só os alvoroçados têm seu lugar garantido.

Era uma vez as almas amorosas. Elas tendem a pedir licença quando passam. Por considerarem seus semelhantes como seres humanos, esperam receber o mesmo tratamento. Com diligência, fazem seu trabalho, são bem intencionadas e sinceras. Ingenuamente, imaginam que suas qualidades serão reconhecidas, apesar de terem conhecimento de suas humanas imperfeições. Elas nutrem o sonho rosado que basta amar para ser amado.

Era uma vez as almas sensíveis que espatifaram a cara no duro asfalto da estrada da vida. A película terminou, a sala se iluminou, holofotes escancaram a visão. Há todo tipo de ser em volta. As almas sensíveis descobrem que não são todos como elas. Há os espíritos de porco e outros amarrotados como papel alumínio sobre seus próprios problemas que mal enxergam os demais. Há os meramente egoístas e os puramente gananciosos, e há os imaturos que fogem dos problemas como o diabo da cruz. Há os interesseiros e espertalhões que agarram tudo o que encontram no caminho, e há os que estão no be-a-bá da existência e mal sabem seu próprio nome.

As almas sensíveis então abrem os olhos. Sendo sensíveis, elas são também inteligentes. Resolvem usar seus companheiros de viagem como mestres. Dos cobiçosos elas aprendem a firmar o pé e proteger seu território. Dos espertalhões aprendem a avançar mesmo que a cotoveladas, porque há gente que não atinou que o mundo não é propriedade delas. Dos prepotentes aprendem a desafiar sem medo; dos falsos incorporam uma saudável cara de pau. Dos egoístas apreendem a arte de fazer seus próprios interesses. Dos atordoados assimilam que nem de todos se pode esperar alguma coisa. E dos espíritos de porco aprendem a suprema lição: a engrossar a casca.

As almas conscientes assumem seu lugar quando o tomam para si. Não esperam boas vindas ou prêmios. Não sonham com aplausos e reconhecimentos. Sabem quem são e fazem o que lhes parece certo. Ninguém irá fazê-lo em seu lugar. Sem perder a sensibilidade, as almas genuinas pegam o que merecem. Entenderam que elas têm o poder de autorgar-se o sagrado direito a Ser.

Em tempos ásperos e nebulosos, quem possui alguma luz (inteligência e amor) há de reconhecê-la por si mesmo e tem a obrigação de fazê-la brilhar, e pronto. Dispensa-se o convite alheio. Não estamos no mundo ideal. Ao invés de lamentar-se, chorar ou beber, ao invés de perder a ternura e virar um autômata amargurado, vestir a camisa e jogar no time adversário, por que não ser sagaz e melhor?

As almas sensíveis, porque querem permanecer vivas e resplandecentes, se autoempoderam, sem cerimônias e sem clamor. Porque é justo e necessário. E, sobretudo, é para já.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Sonhos: o que são e por que sonhamos



Adriana Tanese Nogueira


É evidente para todos que não nos limitamos à perspectiva racional e consciente sobre a vida, nós mesmos e os outros. Espero todos concordem com o que Shakespeare diz pela boca de Hamlet: “Há muito mais sob o Céu e sobre a Terra do que nossa vã filosofia imagina”.

No modo normal do dia-a-dia acessamos diversas informações e fazemos muitas coisas. Mas este não é nosso único “modo” de funcionamento. Existe pelo menos mais uma dimensão inerente à vida humana, intrínseca e íntima. Esta “outra dimensão” está além do nosso acesso “normal” e não se manifesta por meio da linguagem racional, aliás, de nenhuma linguagem. A “outra dimensão” pode quebrar a densidade da linguagem racional com brechas recheadas de outros significados, mas ela mesma não usa as palavras como sua forma de comunicação privilegiada.

Sua linguagem é feita de imagens. Tudo o que fala por imagens mexe diretamente com nossa outra dimensão interna e vice-versa, suas produções são imagens que se refletem amplificadas no mundo externo via projeções (filmes, músicas, histórias, pintura, etc. De onde tiramos tantas idéias se não do mundo interior?). A linguagem dos sonhos é aquela das imagens e para comunicarmo-nos com ela é preciso usar o meio imaginal.

Este método é muito comum com as crianças. Quando uma criança é pequena, e ainda tem livre circulação entres seus dois hemisférios cerebrais, é possível trabalhar todos seus conteúdos conflituais usando imagens. Um desenho é o ponto de partida, em cima dele deixando-se transportar pelo que vemos e seguindo a inspiração é possível reconstruir o que a aflige ou a inspira, tornando-o consciente o suficiente para que ela o integre. Assim, ela supera um conflito ou se empodera de algo precioso – ou, mais frequentemente, ambas as coisas ao mesmo tempo. Jung elaborou algo parecido que chamou de imaginação ativa.

Sonhos são imagens dinâmicas que trabalham dentro da gente, se as deixarmos fazer. Elas gozam de uma certa autonomia, se a racionalidade não interferir querendo trancá-las num significado fechado ou pior, reduzindo-as a um “nada mais que”.

Para compreender os sonhos é preciso referir-se a uma teoria. Teorias são perspectivas, pontos de vistas não-pessoais. Elas fundamentam uma visão de mundo e do ser humano e na base disso interpretam os fatos.

Como gosto de espaços arejados e de visão ampla, minha perspectiva se inspira em Jung e em Montefoschi. Segundo eles, o ser humano é um ser em evolução, cuja suprema missão na Terra é sua individuação. Esse, que é um processo complexo e não fácil, sobre o qual escreverei em outra ocasião para não me delungar aqui, não existe desamparado e solitário num mundo hostil. Muito menos é resultado do anseio onipotente do ego e de sua força de vontade. Nada disso. A individuação é um movimento totalmente espontâneo e universal que atravessa todo ser humano. Ela vem lá do fundo do fundo, é uma tendência psicológica natural. Nascemos assim, todos.

Este processo se relaciona com duas forças opostas, contrastantes e/ou complementares: o mundo externo e aquele interno. Os sonhos vêm daquele interno e nos dão um feedback sobre nossa presença e atitudes no mundo externo. Quando nos sentimos importantes demais, os sonhos nos cutucam mostrando que ainda não chegamos à perfeição. A humildade é essencial no processo de individuação. Quando nos sentimos um insignificante grão de poeira boiando no espaço vazio, os sonhos nos lembram da importância que o indivíduo em sua unicidade tem para o todo. Enfim, os sonhos compensam as atitudes da consciência.

Mas não só. Sonhos podem contar com uma inteligência “superior” que joga luz sobre aspectos de nós que não notamos, ou que não entendemos e que são importantes para estimular e dar suporte ao tal processo de individuação. Sonhos impulsionam para frente, mesmo quando dão tapas na cara desmascarando as ilusões do ego.

Há diversos tipos de sonhos, dependendo, por assim dizer, da camada de onde se originam. Há os profundos, arquetípicos e poderosos cuja luz dura uma vida toda, iluminando nosso caminho do seu início até o fim, e há os circunstanciais e vários outros no meio. O que é seguro, porém é que os sonhos carregam sempre uma mensagem, constituindo-se numa ponte entre as dimensões da psique.

Acolhe-los e compreende-los é, em primeiro lugar, um ato de respeito para conosco. Pode parecer estranho, mas é assim mesmo. É como cuidar do corpo, ele nos sustenta. Sem o corpo eu não poderia estar aqui digitando esse artigo. Sem os sonhos não teria chegado onde estou e entendido melhor quem sou, porque estou aqui e para onde vou.

Em segundo lugar, prestar atenção aos sonhos faz parte de uma relação saudável consigo próprio, é como regar o jardim interno, não deixar que fique árido e estéril. A falta de sonhos é como um quadro branco que perdeu as cores e desenhos que o preenchiam. Os sonhos sempre vêm até nós, mas se não lhes dermos importância, vão-se embora, deixando-nos sós em nosso monótono monólogo interno.

Enfim, relacionar-se com os sonhos é dialogar consigo próprios, onde “consigo próprio” quer dizer o mundo complexo, rico, cheio de personagens, tendências, idéias e desejos diversos. Essa cidade interna é holográfica e os sonhos são sua obra prima. Ser reis de um reino que se desconhece não é lá muito sábio, certo?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Verdadeira Diferença Entre Uns e Outros



Adriana Tanese Nogueira


Idealmente somos iguais perante a lei (quem sabe um dia chegamos lá?) e biologicamente todos da mesma espécie Homos Sapiens. Temos idênticas aspirações: não há um só ser humano que não deseje sua felicidade. Partilhamos todos, indistintamente, dos mesmos medos (da morte, da dor, do abandono) e dos mesmos anseios (conforto, segurança, amor). Existem, é verdade, diferenças do lado de fora: dinheiro, poder político, lugar na hierarquia profissional e social. Não último, há a força do músculo, que apesar de ser um método primitivo é ainda usado nas relações entre poderosos e fracos, homens e mulheres (sic!).

Entretanto, a verdadeira diferença que, inclusive, sustenta as demais, é de outro gênero. O que de fato conta é o que se chama de consciência, em particular os níveis de consciência. Se existe uma qualquer “hierarquia” humana, ela está aqui.

Por consciência entendo as zonas iluminadas que uma pessoa tem sobre si mesma e sobre seu entorno e relações. O fato de saber-se e compreender o que está acontecendo é ter consciência. A consciência joga luz, iluminando uma região, e não só o que gostamos de ver. O ato da consciência não está vinculado às preferências do ego. Quando se acende a luz de um quarto antes escuro e desconhecido não podemos decidir de antemão o que vai ficar debaixo da luz e o que não.

Iluminar um espaço interior não significa enxergar tudo de nós e do mundo; significa que a zona que foi iluminada está agora susceptível de ser descoberta e explorada. Outras regiões da nossa vida e personalidade permanecem na escuridão. As mais próximas da zona iluminada estarão na sombra, as mais longínquas nas trevas.

O que está na escuridão total, pelo fato de não ser imediatamente visto e sequer entrevisto pela consciência é considerado como “não existente”. O que não teria problema algum, se não fosse sua manifestação subrreptícia, por entre as linhas, seus sintomas visíveis e desconfortáveis (angústia, ansiedade, medos, somatizações, etc.). O resultado é que quando a pessoa não tem acesso à fonte de seus problemas, ela se torna uma vítima e cria vítimas à sua volta sem perceber. Jesus Cristo, pendurado na cruz, disse a Deus: “Perdoa Pai, porque eles não sabem o que fazem”. Sem a consciência das próprias ações, nenhuma punição funciona.

Ter consciência é a conditio sine qua non para que ocorram mudanças para melhor. Num qualquer problema de relação (marido-mulher, pais-filhos, trabalho, etc.), é preciso conscientizar-se do que está realmente acontecendo (por trás de acusões, culpas e sabotagens). Quando se está insatisfeitos com a própria vida, é preciso ir mais fundo e iluminar algo que evidentemente não estamos vendo (porque se víssemos, já teríamos mudado). Para que um profissional modifique sua prática fria e impessoal é necessário antes que ele se conscientize do que está fazendo e das consequências que provoca, ou seja, ele deve enxergar-se.

A resistência à tomada de consciência é um fenômeno psicológico universal. Desde Adão e Eva (ou até antes) sabemos (ou sentimos) que tomar conhecimento tem consequências. São essas que tememos. Adão e Eva após comer a maçã se deram conta de que estavam nus e eram mortais. Não é que antes eles andavam vestidos e viviam eternamente. Estavam tão pelados e eram tão mortais quanto depois, só que não o sabiam. Isso faz toda a diferença.

No mundo de hoje, em que medida podemos nos dar ao luxo de permanecer inconscientes? A intensidade dos conflitos pessoais e coletivos é um sintoma do fato que há algo querendo entrar no âmbito da consciência, há algo que precisa ser visto, tratado, acolhido, elaborado, integrado. A luta do ego contra a tomada de consciência produz o conflito.

Tomar consciência é um ato de discriminação. Ao entrarmos num quarto iluminado veremos com precisão uma cadeira, uma cama, uma mesa, as imagens não são borradas. Isso significa que o que notamos se refere a precisos fatos da nossa vida e personalidade, e não a noções genéricas. A reação esperada é ficar de boca aberta e olhos arregalados, é talvez sentir vergonha ou alívio. Qualquer que seja a reação emocional, a consciência traz a possibilidade de botar as mãos nesse algo e trabalhá-lo, pois consciência é sempre consciência de algo (veja-se, E. Husserl), nunca uma abstração. É somente graças a ela que saimos da condição de passividade e nos tornamos agentes construtores de nossas vidas.

Quanto mais “zonas iluminadas” uma pessoa tiver, maior será seu nível de consciência. Esses níveis se parecem ao “grau de escolarização”: quanto mais se tiver estudado, maior o conhecimento. Um indivíduo poderia, preferivelmente, estudar pela vida inteira. O mesmo vale para a consciência, quando mais se trabalha na própria clareza interna, mais zonas estarão iluminadas e, de quebra, mais clara ficará a visão do que tem fora. A consciêntização é um processo progressivo, que segue um percurso ascensional, espiralado e infinito.

A consciência desenvolvida é uma consciência complexa (veja-se C. G. Jung, S. Montefoschi e Teilhard de Chardin), capaz de fazer interrelações entre fenômenos diferentes da vida psíquica, pessoal e coletiva. Sabe enxergar conexões, vínculos e causa-efeito entre áreas diferentes do pessoal e do social. Discerne entre dimensões diferentes do mesmo fato e, com certeza, sente-se à vontade em relacionar fenômenos do inconscientes com eventos conscientes, fatos subjetivos com aqueles objetivos.

O paralelo com a escola tem seu limite porém, porque é mais fácil pular graus escolares do que dar saltos de consciência. A evolução da consciência é um fenômeno inevitável e irrefreável, mas tem seus tempos e depende da disponibilidade, circunstâncias, coragem, prontidão, etc. de cada um. E aí é que nos enganamos muitas vezes a respeito dos outros.

Foi Silvia Montefoschi quem me iluminou a esse respeito. Sua primeira formação é em biologia, e uma vez, num encontro, ela disse: no reino animal reconhecemos as espécies superiores das inferiores pela forma e complexidade do cérebro. Sabemos que uma ameba é inferior a um macaco e que este é inferior a nós (entretanto respeitamos ou deveríamos respeitar todos os animais indistintamente). No mundo humano, as coisas não são tão simples. Todos temos um cérebro poderoso, duas orelhas, dois olhos, etc., somos bípedes e usamos as mãos... Fisicamente, parecemos todos iguais. Do ponto de vista cultural, temos claras hierarquias, mas uma pessoa instruída pode ser maléfica tanto quanto uma pessoa ignorante. O cultural ainda não faz a diferença que desejamos porque não é ele o x da questão.

O verdadeiro elemento distintivo é o nível de consciência. Se transportarmos as etapas evolutivas biológicas para a realidade da consciência humana, ficará claro. Há pessoas no estágio da idade da pedra: comem (que seja arroz com feijão ou caviar), bebem (que seja cerveja ou champagne) dormem (num barraco ou palácio) e acreditam na força (seja a dos músculos ou a do dinheiro) como base de suas relações. Há os que estão na Idade Média consideram a ordem do mundo imutável e dada por Deus, tudo é vontade Dele, tudo já está convenientemente escrito, há pouco o que fazer, além, claro, de ir à Igreja e seguir suas normas e não fazer muito barulho. Há os Iluministas que acham que pelo poder da razão podem tudo, o resto não interessa; acreditam na Vontade toda poderosa, na lógica e explicam a realidade com o “não é nada mais quê...”. Há os de espírito escravo que não se dão o direito de levantar a cabeça e seguem as autoridades que encontram no caminho, sejam elas charmosas (e manipuladoras) ou truculentas (e reacionárias). E há, inclusive, os que são Iluministas no pensamento e Medievais no sentimento.

Enfim, entre uns e outros, existe um pouco de tudo ao mesmo tempo. Há os que pertencem ao século XXI e os que ainda estão no Reveillon do ano 999...